Repensar, Desaprender, Inovar e Reaprender Sempre – Será?

Começo transcrevendo algo que escrevi primeiro em meu perfil no Facebook. É uma citação que eu traduzi livremente. Coloco aspas, porque afinal de contas o que segue é uma citação — embora não seja uma citação literal. Ao traduzi-la do inglês, acentuei algumas cores, abrandei outras. Tirei uma referência aos cientistas, porque a maior parte dos cientistas que conheço são culpados dos erros que o autor assinala. Substituí a referência aos cientistas por uma referência aos sábios… Quase disse filósofos, mas iria parecer uma arrogante tentativa de puxar as brasas para a minha sardinha.

Aqui vai a citação (que, no original, está em um parágrafo único):

“A inteligência é geralmente vista como a habilidade composta, ou o conjunto de capacidades, que envolvem pensar e aprender. Contudo, em um mundo que muda com a rapidez que o nosso muda, há uma outra habilidade composta, um outro conjunto de capacidades que podem ser muito mais importantes — para nós e para os outros: a capacidade de repensar e a capacidade de desaprender…

Em nossa vida diária, muitos de nós privilegiamos o conforto da convicção e da certeza frente ao desconforto da dúvida e da incerteza.

Preferimos dar ouvidos a opiniões que confirmam nossas convicções e assim fazem com que nos sintamos bem — em vez de acolher para análise e exame opiniões que, se levadas a sério, vão nos obrigar a pensar duro, com profundidade e abrangência, e, quem, sabe abandonar nossas principais crenças e convicções atuais.

Pouquíssimos estão dispostos a tanto.

Cercamo-nos de pessoas que concordam com nossas teses e com nossa forma de pensar, e até mesmo com os argumentos que nos levaram a elas. Deveríamos, isto sim, gravitar ao redor daqueles que desafiam nossas conclusões, refutam nossos argumentos, nos desafiam a pensar de modo diferente, fora da caixa, sem pressupor que nossos paradigmas e nossos mindsets são inquestionáveis…

O resultado disso é que nossas convicções e crenças se tornam notavelmente frágeis e facilmente quebradiças — antes mesmo que nossos ossos fiquem assim…

Quando pensamos, parecemos pregadores, que julgam que seu dever é defender suas crenças sagradas…

Ou parecemos promotores, que julgam que seu dever sempre é provar que o outro lado está errado…

Ou parecemos políticos que fazem campanha buscando nossa aprovação, no fundo o nosso voto e, quem sabe, uma pequena dose de adulação e puxa-saquismo…

Isso quando deveríamos pensar como os sábios, que, em sua busca pela verdade, questionam, até mesmo, e às vezes primeiro, os seus próprios pontos de vista, pressupostos e mindsets, admitindo que pouco ou até mesmo nada sabem…

A inteligência como capacidade de pensar e aprender não é, sozinha, a cura para os nossos problemas — e pode até mesmo se tornar uma maldição, que os torna piores.

Ser apenas brilhante no pensar e no aprender em geral prejudica nossa capacidade de encarar com certo desapego e mesmo ceticismo as nossas próprias crenças e convicções, nos impede de repensá-las, de analisá-las com coragem e seriedade, quem sabe de desaprendê-las, para que possamos aprender outras coisas e reaprender a pensar de outras formas.

Ser apenas brilhante no pensar e no aprender em geral prejudica nossa capacidade de ouvir com empatia e apreciação pontos de vista discordantes. Essa a verdadeira tolerância – não a condescendente admissão que cada um tem o direito de ser imbecil e aceitar a besteira que quiser (que, em si, já é um progresso diante daqueles que querem “lacrar” ou mesmo “cancelar” os que ousam discordar deles…).

Quanto mais inteligentes e brilhantes nos achamos, mais cegos ficamos para com nossos pontos fracos e com nossas limitações. Rever uma convicção e uma certeza se torna, nessas condições, quase impossível. Nessas circunstâncias a discussão racional e verdadeiramente crítica se torna inviável.”

Quem disse o que acabo de transcrever foi Adam Grant, em seu livro Think Again: The Power of Knowing What You Don’t Know, a ser lançado, infelizmente, apenas em 1.2.2021, daqui a quase quatro meses. (Vide https://smile.amazon.com/gp/product/1984878107).

A tese de Adam Grant, com a qual eu tenho enorme simpatia — quase total — é de que devemos repensar e desaprender nossas convicções e crenças, e fazer isso sempre – para poder reaprender de forma constante.

Como disse, tenho simpatia quase total por essa tese. Minha única ressalva é que quero também defender que há cercas convicções e crenças de natureza geral que são perenes e representam verdades absolutas — como, por exemplo, a de que a verdade existe, e que ela existe em todos as áreas e todos os domínios em que temos algum conhecimento: o conhecimento filosófico, que foi capaz de definir a existência do conhecimento da realidade observável (isso é empiricamente verdadeiro / isso é empiricamente falso), o conhecimento dos preceitos morais (isso é moralmente bom ou certo / isso é moralmente ruim ou errado), o conhecimento dos juízos estéticos (isso é esteticamente belo / isso é esteticamente feio), o conhecimento dos juízos de justiça (isso é justo / isso é injusto), etc. Note-se que não estou afirmando de nenhuma proposição específica que ela é empiricamente verdadeira / falsa, moralmente boa ou certa / ruim ou errada, bela ou feia, justa ou injusta. Estou afirmando simplesmente que existe, nessas áreas, hipóteses ou teorias, julgamentos, juízos, ações que têm um caráter de ser perene e absolutamente verdadeiras (ou falsas), boas ou certas (ou más e erradas), belas (ou feias), justas (ou injustas), etc. Por exemplo: a  nossa vida hoje aqui na Terra, com o estilo de vida que temos, não dura mais de 150 anos; matar uma criança pequena, inocente, com requinte de crueldade ou de forma indolor é errado; esgoto escorrendo excrementos a céu aberto é algo muito feio (além de provavelmente também errado); um casal que esperou cinco anos para poder casar e acabou de casar morrer em um acidente, causado por um raio, quando ia para a lua de mel é terrivelmente injusto. Não critique meus exemplos específicos. Critique a tese que eles supostamente ilustram se você não acredita que haja verdades perenes e absolutas.

Mesmo a esquerda atual, que está disposta a defender a tese de que ninguém nasce homem ou mulher, tenta sustentar a existência de algumas verdades absolutas: a de que é moralmente errado, por ferir a sensibilidade alheia, chamar de rapaz uma moça trans (como o fez o Rubens Ewaldo Filho numa transmissão do Oscar), que é moralmente errado impor limites ao que uma mulher pode fazer com parte de seu corpo ou com algo (como um feto) que está dentro dele. E assim vai.

Em Salto, 13 de Outubro de 2020.

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Quadro de Virtudes e Traços Desejáveis de Caráter

Compatibilização das listas de Martin E. P. Seligman e de Values in Action (VIA) feita e traduzida para o Português por Eduardo Chaves.

Na lista compatibilizada há seis virtudes básicas. Debaixo de cada uma delas há de três a cinco traços desejáveis de caráter. Ao todo, eles são vinte e quatro.

  1. Sabedoria (Wisdom & Knowledge)
    • Criatividade (Creativity)
    • Curiosidade (Curiosity)
    • Mente Crítica e Aberta (Judgment & Open Mindness)
    • Paixão de Aprender (Love of Learning)
    • Perspectiva (Perspective)
  2. Coragem (Courage)
    • Fortitude (Bravery)
    • Perseverança & Resiliência (Perseverence)
    • Honestidade (Honesty)
    • Entusiasmo (Enthusiasm & Zest)
  3. Humanidade (Humanity)
    • Amor (Love)
    • Bondade (Kindness)
    • Inteligência Social e Emocional (Social Intelligence)
  4. Justiça (Justice)
    • Cooperação (Teamwork)
    •  Imparcialidade (Fairness)
    • Liderança (Leadership)
  5. Temperança (Temperance)
    • Perdão e Misericórdia (Forgiveness & Mercy)
    • Modéstia e Humildade (Modesty & Humility)
    • Prudência (Prudence)
    • Autocontrole (Self-Regulation)
  6. Transcendência (Transcendence)
    • Apreciação da verdade, do bem, da beleza (Appreciation of Beauty & Excellence)
    • Gratidão (Gratitude)
    • Esperança & Otimismo (Hope)
    • Senso de Humor (Sense of Humor)
    • Espiritualidade (Spirituality)

Em Salto, 9 de Outubro de 2020, revisado em 31 de Dezembro de 2020.

Saúde e Doença, Física e Mental

No modo de entender da maioria, meu mesmo, até há algum tempo, e falando do ponto de vista estritamente físico (orgânico ou biológico), não psicológico, uma pessoa doente é uma pessoa que não está sadia, e uma pessoa sadia é uma pessoa que não está doente. As definições de doença e saúde são feitas, pela maioria das pessoas, dessa forma negativa, como ausência de alguma coisa. Uma pessoa que não tem saúde está com alguma doença e uma pessoa que não tem nenhuma doença está com saúde.

Embora a saúde, nesta hipótese, tenha, por assim dizer, uma face só (a ausência de doença), a doença, nesta mesma hipótese, pode ter várias faces, também por assim dizer: a pessoa pode estar com desnutrição, pneumonia, tuberculose, febre amarela, diarreia, pressão alta, ou, que Deus o impeça, até câncer — e o câncer, por sua vez, também pode ter várias faces. A hoje famigerada Organização Mundial da Saúde (OMS, para nós, WHO, World Health Organization / Organisation, para os gringos, dependendo de sua espécie — os americanos usam “z”, os britânicos usam “s”) publica até um livro chamado Classificação Internacional de Doenças – CID (ou International Classification of Diseases – ICD), cuja 11a versão foi aprovada pela OMS/WHO em 25.5.2019 e entrará em vigor em 1.1.2022, que lista e classifica, ordenadamente, todas as doenças. Se algo não está ali, oficialmente não é doença (ainda), sorry to say. Os médicos, quando alguém é diagnosticado com alguma doença, ou, Deus o livre, morre em decorrência de alguma doença, precisam indicar o código CID/ICD da doença de que o indivíduo é portador ou que causou a sua morte.

A saúde, como ressaltei, tem uma face só: sadio é quem não tem nenhuma das doenças listadas no CID/ICD. Sadio, nesse sentido, é, por assim dizer, o estado da pessoa “normal”, que não padece de nenhuma doença.

Mas como diferenciar a pessoa sadia, nesse sentido negativo básico, da pessoa robusta, muscular, energética ou atlética, de aparência extra-super-hiper-saudável, que corre 10km por dia, dá, ao final, dez voltas nadando na piscina olímpica, participa de maratonas, levanta pesos, faz alpinismo, tem barriga negativa ou de tanquinho, que até parece ter “excesso de saúde” – pessoa que, na fala popular, “está esbanjando (ou vendendo) saúde”? Parece não haver uma palavra só que capte este sentido de “mais que perfeito”, de “mais que sadio e saudável”, de “saúde plus”.

Embora, na medicina, se fale em medicina curativa e medicina preventiva, o que se pretende curar ou prevenir é sempre uma doença. Não há uma medicina de promoção de “saúde esbanjativa”, por assim dizer. Isso fica mais por conta das academias de ginástica…

Mas estou mais interessado na área da saúde mental ou psicológica do que na área da saúde física ou biomédica (talvez com um hífen entre as duas partes da palavra para não confundir os incautos).

Também na área mental se fala em doença mental e saúde mental. E, de igual modo, sadio, mentalmente, é quem não tem nenhuma doença mental, e doente, mentalmente, é quem não está sadio, mentalmente. E a função da psicologia tem sido curar ou prevenir a doença mental — sendo essa tarefa idêntica ao que se poderia chamar de promoção da saúde mental.

Mas como descrever, em termos psicológicos, alguém que além de sadio, mentalmente, nesse sentido negativo mínimo, em que não tem nenhuma doença mental, tem características como estas: esbanja vigor mental, é cheio de interesses e curiosidades, gosta de ler, conversar e debater questões importantes, é moderado e equilibrado, íntegro, honesto e justo, é amigo afetuoso e leal, e, portanto, tem muitos bons amigos, tem um casamento que é um exemplo para os demais mortais, é evidentemente feliz na vida pessoal e plenamente realizado pessoal, social e profissionalmente, ganha (bem!) a vida fazendo aquilo que adora fazer e que faria mesmo de graça, e, portanto, nunca vai se aposentar, e, por cima de tudo, é tranquilo, sereno, solidário, caridoso, modesto e até mesmo humilde – e, além do mais, tem preocupações, que só podem ser descritas como espirituais, com realidades e processos que estão além, e, portanto, transcendem nossa capacidade de entender, admitidamente finita e limitada?

Note-se que, na minha descrição no penúltimo parágrafo, eu não estava contemplando uma pessoa hedonista, que só busca prazeres de todos os tipos: eu estava contemplando uma pessoa virtuosa e de caráter íntegro. O prazer da pessoa que descrevi está em ser virtuoso, em “esbanjar virtudes” — não em apenas parecer virtuoso para que as pessoas que se preocupam com essas coisas possam admirá-lo… Dirigindo-se (imagino) exclusivamente aos homens, o autor de Provérbios, que muitos acham que foi o Rei Salomão, afirma: “Mulher virtuosa, quem a achará? Pois o seu valor excede em muito ao de rubis!” (Prov 31:10).

Como diria Ariano Suassuna, mestre das palavras, se a gente chama de mentalmente sadio ou são uma pessoa que não tem nenhuma doença mental, se essa pessoa é, além disso, um exemplo de virtude e tem um caráter que, por seus traços louváveis, é de fazer inveja, sendo um paradigma da saúde mental que toda pessoa de bem deseja ter e promover, do que é que a gente vai chamar essa pessoa que acabei de descrever? De mentalmente sadia plus plus plus?

Em Português, não há termo. Mas esse estado de pessoa “mais que perfeita” em termos de saúde mental, os gregos chamavam de eudaemonia. E o termo é usado até hoje, tendo tido, nos últimos tempos, uma ressurreição fantástica nas mãos dos responsáveis pela chamada Psicologia Positiva, a grande invenção de Martin E. P. Seligman: a psicologia que busca, além de curar as doenças mentais do ser humano, promover o desenvolvimento de um ser humano eudaemônico, íntegro, feliz e realizado no maior grau possível.

Essa questão é profundamente relevante para a educação. Ela retoma e leva adiante aquilo que, no passado, se chamava de “Educação do Caráter” ou “Formação do Caráter”

Há uns tempos atrás, entusiasmado com a Psicologia Positiva, criei uma página no Facebook e um blog. A página, chamada Eudaemonia, está em:

https://www.facebook.com/eudaemonia.space/.

O blog, chamado Eudaemonia Space, está em:

https://wordpress.com/view/eudaemoniaspace.wordpress.com.

Este artigo é um teaser. Mas vou colocá-lo no blog também…

Em Salto, 25 de Abril de 2020.

A Educação Moral

A Educação Moral ([1])

Conteúdo

  1. Educação Integral e Educação Moral
  2. A Moralidade: Início da Discussão
  3. Ações Morais, Imorais  e “Neutras” do Ponto de Vista Moral
  4. A Questão dos Critérios – ou: A Moralidade no Plano Cognitivo
  5. O Querer Fazer o que é Certo – ou: A Moralidade no Plano Conativo
  6. O Fazer o que se Quer Fazer e o não Fazer o que não se Quer Fazer
  7. Moralidade e Valores
  8. A Educação Moral: À Guisa de Resumo e Conclusão
  9. Notas

o O o

1. Educação Integral e Educação Moral

A educação escolar tem tradicionalmente concentrado sua atenção nos aspectos cognitivos do ser humano – naqueles aspectos relacionados com o desenvolvimento do seu intelecto, do seu entendimento, de sua capacidade de pensar, de sua inteligência. Para quem observa uma escola tradicional, parece que sua única preocupação é conseguir passar aos alunos informações e conhecimentos – e, na melhor das hipóteses, desenvolver neles algumas competências de natureza cognitiva, a maior parte delas de cunho linguístico, lógico ou retórico (a essência do Trivium Medieval) – que os alunos precisam possuir (acredita-se) para poder vir a atuar competentemente no mundo adulto.

Sir Ken Robinson, em um de seus vídeos, chegou a dizer, caricaturando essa tendência, que para a maioria dos educadores (em especial os que atuam no Ensino Superior e se consideram intelectuais), a única função do corpo dos seres humanos é carregar o cérebro das pessoas de um lugar para outro… (O cérebro, naturalmente, é visto, hoje em dia, como o locus, por excelência, de suas competências e habilidades cognitivas, de seus conhecimentos e das informações que possuem… Antigamente se atribuíam à mente das pessoas aquilo que hoje se atribui ao seu cérebro! Será que viramos todos materialistas, sem perceber?)

No entanto, tão importantes para os seres humanos quanto o seu intelecto são a sua sensibilidade, os seus sentimentos, as suas emoções, a sua vontade, a sua imaginação, em geral tristemente ignoradas pela educação escolar tradicional. Sem a imaginação, por exemplo, não teríamos literatura de ficção, que, segundo Mário Vargas Llosa, é o conjunto de supostas mentiras que, na realidade, constitui o conjunto mais valioso de verdades importantes que a humanidade possui!! Falar para alguns educadores em “educação da sensibilidade”, “educação dos sentimentos”, “educação das emoções”, “educação da vontade”, “educação da imaginação” é arriscar-se a receber em resposta um olhar vidrado de quem imagina que está tendo contato com um ser extra-terrestre. Se falar em “educação do caráter”, então, é possível que os educadores se retirem da sala. (O locus físico ou biológico dessas características, é bom que se frise, é tradicionalmente visto como o coração, não o cérebro.) [2]

No entanto, a retórica pedagógica, até mesmo a atual, frequentemente inclui referência à chamada “formação integral” (da criança), sugerindo que a educação não pode se limitar apenas à transmissão de informações e conhecimentos e ao desenvolvimento das competências e habilidades cognitivas do ser humano. É raro, porém, que fique claro no que consistiria essa formação integral. Instituições educacionais de origem confessional geralmente dão a entender que ela inclui educação moral e educação religiosa – mas em geral concebem a educação moral e a educação religiosa de forma intelectualizada, quando não puramente doutrinacional, como a inculcação de certos valores e regras de conduta moral e de algumas doutrinas religiosas (não raro extremamente comezinhas).

Por isso, apesar de a expressão “formação integral” aparecer, hoje em dia, com certa frequência também na literatura pedagógica secular e leiga, para muitos não é muito claro o que se tem em mente quando se fala em facetas da educação que vão além da transmissão de informação e conhecimento e do desenvolvimento de competências e habilidades puramente cognitivas. (Alguns, de entendimento simplório, entendem que “formação integral” é equivalente a “escolarização em período integral” – o dia inteiro…)

A finalidade deste texto é procurar esclarecer um dos componentes – talvez o mais importante – da dita formação integral: a “educação moral”. No processo, discutir-se-á como ela pode ser realizada – em casa, na comunidade, na igreja, ou em qualquer outro contexto — num mundo ideal, que não é o nosso, até mesmo na escola. Ver-se-á que a educação moral, embora contenha elementos cognitivos (que, para alguns, esgotam o seu significado), está estreitamente envolvida com a educação da sensibilidade, dos sentimentos, das emoções, da imaginação, e, principalmente, da vontade.

Assim, pressupondo que o leitor já tenha razoável clareza acerca do que seja a educação, é necessário, para entender o que é a “educação moral”, discutir o que é a moralidade – ou seja, entender a natureza da moralidade. É essa questão que será abordada a seguir.

2. A Moralidade: Início da Discussão

O que é a moralidade?

Em vez de partir, de início, para uma definição formal, como as que se encontram em dicionários, vou tentar, primeiro, delimitar o conceito de forma mais indireta – perguntando, por exemplo: “De que tipo de coisas dizemos que são morais ou imorais?”

Fazendo esta pergunta a uma classe numa escola confessional na qual eu discutia a questão, a primeira resposta que me foi dada foi: “Roupas”. De início fiquei surpreso que minha interlocutora fosse pensar, em primeiro lugar, exatamente nesse tipo de coisa, ao refletir sobre a moralidade. Mas lembrando-me de que a igreja a que pertence a referida aluna é das que colocam bastante ênfase na indumentária dos alunos (especialmente das alunas), proibindo (ou, pelo menos, enfaticamente “desincentivando”), para mulheres, calças justas, saias curtas, blusas decotadas, tecidos transparentes, a resposta começou a fazer sentido e acabou gerando excelente discussão.

Retruquei, meio socraticamente, na forma de pergunta à minha interlocutora, em que sentido roupas podiam ser consideradas morais ou imorais? Perguntei a ela se a roupa que eu estava usando na ocasião (calças jeans, camisa social e suéter) seria moral ou imoral. A resposta foi de que minha roupa era moral – ali naquele contexto, frisou ela; se eu estivesse num banquete chique, continuou a moça, minha roupa seria considerada – digamos – inadequada (até ela relutou em dizer “imoral”), porque eu estaria sub-vestido… Se eu estivesse numa praia, acrescentou ela, minha roupa também seria considerada inadequada, porque eu estaria super-vestido. Mas ali naquele contexto, minha roupa era totalmente adequada (hoje, é bom acrescentar), e, por conseguinte, moral.

A partir dali procurei aprofundar a discussão da distinção entre uma roupa “imoral” e uma roupa “inadequada à ocasião”. É claro que roupas podem ser claramente inadequadas a determinadas ocasiões. Perguntei à aluna se ela achava que, no tocante a roupas, ser imoral era a mesma coisa que ser inadequada à ocasião.

Sua resposta tergiversou um pouco. Ela disse: “Não exatamente… uma roupa imoral é roupa indecente”. Com isso, introduziu um novo conceito na discussão: o de decência.

Perguntei a ela se, a seu ver, o indecente não seria apenas um caso especial do inadequado à ocasião, no tocante a roupas? Perguntei-lhe se ir à igreja de biquini seria indecente – e ela (como era de esperar) respondeu que sim. Perguntei-lhe, então, sem muita certeza do que ela iria responder, se ir à praia de biquini também seria indecente. Felizmente, para o que eu pretendia, ela disse que não. Perguntei a ela, por fim, se isso não indicava que uma roupa indecente não é simplesmente um caso (talvez extremo) de roupa inadequada à ocasião – havendo ocasiões em que, possivelmente, até nenhuma roupa seja considerado “traje” adequado…

Se me detenho com certo detalhe nessa conversa, é porque ela revela a confusão que existe na mente de muitas pessoas acerca do objeto da moralidade. Procurei esclarecer aos alunos (a maioria do sexo feminino, mas eu não sou politicamente correto) que, no uso mais básico dos termos “moral” e “imoral”, eles normalmente não são aplicados a coisas – na realidade, nem mesmo indiscriminadamente a coisas vivas como animais ou plantas. Normalmente, apenas pessoas (não é preciso acrescentar “humanas”) são consideradas morais ou imorais. Se roupas puderem ser chamadas de morais e imorais, é apenas em um sentido derivativo.

Mais precisamente, não são as pessoas, enquanto objetos físicos ou seres biológicos, que são chamadas, em determinados contextos, de morais ou imorais, mas as pessoas enquanto seres conscientes capazes de pensar, refletir, fazer escolhas, decidir, e, principalmente, agir com base na escolha feita e na decisão tomada.

Procurei mostrar, com perguntas aos alunos, que, na verdade, são as ações das pessoas que são consideradas moralmente certas ou erradas. Não faz sentido dizer do rosto ou do pé de uma pessoa que seja moral ou imoral, observei. “Ah”, disse uma aluna: “mas um olhar pode ser imoral!”. Hummm… Essa observação nos levou a esclarecer a diferença entre uma característica física de uma pessoa, como os seus olhos, e uma ação sua, como um olhar. Os olhos são os olhos, órgãos do corpo humano. Mas os olhares dos olhos são ações – e embora possamos olhar as coisas e as pessoas despreocupadamente, sem pensar sobre o que estamos fazendo, muitas vezes nosso olhar – certamente o tipo de olhar em relação ao qual faria sentido dizer que é imoral – é (quero crer), um olhar intencional (e, consequentemente, refletido, deliberado, escolhido, voluntário…).

Em parênteses é oportuno levantar a questão, para discussão posterior, se coisas que não são facilmente classificáveis como ações, como pensamentos, decisões e desejos, podem ser apropriadamente classificadas de morais ou imorais. Mas por enquanto vamos nos limitar a discutir ações, propriamente ditas – pressupondo que, intuitivamente pelo menos, sabemos o que são ações e como elas diferem de meros movimentos – podendo, concebivelmente, haver ações que não envolvem movimento algum – como pensamentos, decisões, desejos, etc..

Em outro parêntese, é oportuno também registrar que alguns objetos são frequentemente descritos como morais – ou, mais frequentemente, imorais: pinturas, fotografias, livros, filmes, novelas, etc. Nestes casos, quer me parecer que sua suposta imoralidade seja uma forma elíptica de se referir à imoralidade das ações humanas neles verbalmente descritas ou visual ou graficamente representadas – mas devemos nos manter alertas para eventualmente rever essa posição, se necessário.

É porque as ações, em si, podem ser vistas como morais ou imorais, que frequentemente estendemos essas categorias à conduta em geral, às atitudes, às posturas, etc. (que são de certo modo agrupamentos [clusters] ou padrões [patterns] de ações) ou mesmo a objetos (como pinturas, fotografias, livros, filmes, novelas, etc.).

3. Ações Morais, Imorais  e “Neutras” do Ponto de Vista Moral

Seriam todas a ações humanas morais ou imorais, ou haveria ações humanas que não são nem uma coisa nem outra?

Esta questão geralmente permite que uma discussão muito frutífera tenha lugar em sala de aula. Colocada aos alunos, rapidamente surgem vários exemplos de ações que (pelo menos aparentemente) não possuem nenhuma conotação moral: entre outras, as ações de pentear os cabelos (bem como colori-los ou deixa-los crescer além do que geralmente se considera normal), amarrar os sapatos, comer à mesa, e vestir-se parecem não ter implicações morais – embora, naturalmente, a questão do que é lícito ou recomendável comer ou vestir possa não ser tão consensual (haja vista a discussão relatada atrás sobre a pretensa imoralidade de determinadas roupas e a notória proibição, para os fiéis de determinadas religiões, de comer determinadas coisas).

Apesar de dificuldades de classificação, não é difícil obter consenso de que há ações humanas que são morais, outras que são imorais, e outras que são neutras do ponto de vista moral (isto é, nem morais nem imorais).

Uma primeira aproximação à questão de delimitação do conceito de moralidade nos leva, portanto, a distinguir, num primeiro momento, duas grandes categorias de ações: as que têm, digamos, conotação (significado, relevância) moral e as que não têm. Num segundo momento, as que têm conotação moral podem, por sua vez, ser diferenciadas em ações morais (ou “moralmente certas”) e ações imorais (ou “moralmente erradas”).

Categorizando as ações humanas desta forma, temos o que poderia ser representado como um retângulo dividido em duas metades, uma das quais é também subdividida em duas metades. Do lado da primeira metade, não subdividida, colocaríamos as ações sem conotação moral. Do lado da outra metade, colocaríamos as ações com conotação moral, devidamente classificadas e divididas em “moralmente certas” (morais) e “moralmente erradas” (imorais).

Outro parêntese: É possível dividir a primeira metade do retângulo também em duas partes, colocando na de cima ações em que está envolvida apenas e exclusivamente uma escolha pessoal (se corto meu cabelo mais curto ou mais longo, se faço uma tatuagem, se uso um piercing, por exemplo) e, na de baixo, ações em que a escolha até certo ponto continua a ser pessoal mas é (essa escolha) constrangida por convenções sociais e, no limite, fixada em lei, sem que, por isso, essas ações se tornem morais. Dois homens andarem de mãos dadas na rua é uma ação ainda sujeita, hoje, aqui no Brasil, a constrangimento social e até mesmo a agressão. [Escrevi isso no ano 2000] Andar pelado na rua é uma ação sujeita a sanções penais, porque há leis que proíbem. De qualquer maneira, em nenhum desses dois casos se trata de uma questão moral. Fim do parêntese.

Colocando as coisas nestes termos, é forçoso reconhecer que a primeira linha que, por hipótese, divide o retângulo em duas partes, não fica exatamente no centro para todas as pessoas – talvez não fique exatamente aí para nenhuma pessoa. Pessoas mais liberais (o termo aqui significando que estão dispostas a conceder um espaço bem mais amplo para a discrição pessoal) em geral deixam um espaço bem menor para ações com conotação moral do que para ações ditas neutras (em qualquer das duas sub-categorias mencionadas, ressalvados, talvez, os casos em que há leis envolvidas, embora alguns liberais tenham abertura para o chamada desobediência civil). Pessoas mais conservadoras parecem ter um senso de moralidade mais aguçado e tendem a aumentar o lado das ações com conotação moral – deixando às vezes muito pouca coisa no lado considerado neutro. Até o modo de se vestir e aquilo que se ingere como alimento é regulado por preceitos que consideram morais.

Mais um parêntese, meio grande. Como já observamos de passagem, para algumas pessoas, o que alguém come, ou o modo de alguém se vestir, estaria do lado da ações com conotação moral – outras pessoas achando que nem mesmo andar pelado ou manter relações sexuais promíscuas e indiscriminadas (ou colar numa prova, ou plagiar terceiros ao elaborar trabalhos escolares) é imoral.

Na verdade, na Bíblia, em especial no Velho Testamento, temos uma fonte aparentemente inesgotável de exemplos de ações, realizadas por grandes vultos bíblicos, chamados às vezes de Heróis da Fé ou Patriarcas, que muitos considerariam evidentemente imorais: Abraão, ansioso por ter um filho, e sendo sua mulher, Sara, estéril, teve filhos com a criada de Sara, por sugestão da própria mulher, que depois escorraçou a rival [Gênesis 16:1-6]; o próprio Abraão, depois de ter um filho [Isaque] com Sara, miraculosamente curada da sua esterilidade [Gênesis 17:15-16, 18:9-15 e 21:1-2], se dispõe a matá-lo em sacrifício a Deus, por ordem deste [Gênesis 22]; Davi, embevecido pela beleza de Bethseba, mulher casada e, pelo que tudo indica, virtuosa, a toma (na sua posição de rei poderoso de Israel) para si e manda o marido dela, Urias, para a frente de batalha, para que seja morto [II Samuel 11]. E assim vai. A ação de David é punida, mas as de Abraão “passam batidas”, sem punição ou recriminação alguma, sua disposição de sacrificar Isaque sendo até mesmo colocada como exemplo do suprassumo da fé: a disposição de obedecer total e cegamente  às ordens divinas, sem antes indagar e refletir se elas são morais ou imorais. [3] Fim do parêntese grande.

4. A Questão dos Critérios – ou: A Moralidade no Plano Cognitivo

Tendo chegado de forma relativamente fácil a um consenso de que há ações humanas que são morais, outras que são imorais, e outras que são neutras (nem morais nem imorais, cuja decisão cabe a cada pessoa, individualmente, ou com a ajuda de convenções e outras regras e normas sociais, até leis, mas sem que por isso se tornem questões morais), há que se confrontar uma questão sobre a qual consenso talvez seja totalmente impossível: através de que critérios diferenciamos estas duas coisas:

  1. Ações neutras (que não possuem conotação moral) das ações que possuem conotação moral (podendo ser consideradas moralmente certas [morais] ou moralmente erradas [imorais])?;
  2. Dentro das ações que possuem conotação moral, aquelas que são moralmente certas (morais) das que são moralmente erradas (imorais)?

Note-se que se trata de dois critérios diferentes aqui: um demarca entre ações neutras, do ponto de vista moral, e ações que possuem conotação moral; o outro procura demarcar, dentro do universo das ações que possuem conotação moral, as que são moralmente certas das que são moralmente erradas.

Embora em ambos os casos estejamos lidando com critérios, vou chamar o primeiro problema de critério de demarcação do escopo da moralidade, e o segundo problema de critério de demarcação das ações moralmente certas das ações moralmente erradas. Há quem acredite que um só critério resolva os dois problemas – eu tenho cá comigo sérias dúvidas.

Registre-se ainda que aqui estamos lidando com uma questão epistemológica – isto é, com uma questão que tem que ver com as condições de nosso conhecimento. Em outras palavras, o que se pergunta é como é que eu sei (ou aprendo) que uma ação é neutra, moralmente certa ou moralmente errada? O que se busca, ao se fazer essa pergunta, são critérios de demarcação: como é que eu demarco ações de um tipo de ações dos outros tipos.

Ao discutir essas questões estaremos, portanto, discutindo a moralidade no plano cognitivo – o plano em que nos perguntamos como é que eu sei que determinadas ações são erradas e outras certas, do ponto de vista moral, e ainda outras não são nem moralmente certas nem moralmente erradas, porque não possuem conotação moral (sendo moralmente neutras, portanto)?

Vários critérios têm sido propostos ao longo da história da humanidade. Mencionarei apenas dois – um, um critério que apela para uma autoridade (que determina em que categoria se enquadram as várias ações); o outro, um critério consequencialista (que julga as ações não por seu mérito intrínseco, mas de conformidade com suas consequências).

Aqueles que consideram a Bíblia sua única “regra de fé e prática”, geralmente acreditam que, se a Bíblia ordena determinada ação, ela é moralmente certa; se a Bíblia a proíbe, ela é moralmente errada; se a Bíblia nem ordena nem proíbe, a ação não é nem moralmente certa nem moralmente errada – é moralmente neutra.

Os filósofos utilitaristas do século 19 pressupunham que o que importa não é a fonte de uma ordem ou uma regram, nem sua “natureza intrínseca” (se é que se pode falar nisso), mas as suas consequências, quando elas são transformadas em ações nossas. E seu critério básico de moralidade estava ligado a “fazer bem” aos outros (a torná-los felizes). Assim, se uma determinada ação faz bem aos outros (os torna felizes), ela é moralmente certa; se faz mal aos outros (os torna infelizes), ela é moralmente errada; se não faz nem bem nem mal, ela não é nem certa nem errada, do ponto de vista moral. Se duas ações fazem bem aos outros, é preferível a ação que faz mais bem (torna os outros mais felizes ou torna mais gente feliz) – o princípio da maior felicidade do maior número de pessoas sendo o critério aplicável. Se duas ações fazem mal aos outros, é preferível a ação que faz menos mal (torna os outros menos infelizes ou torna menos gente infeliz) – o princípio da maior felicidade do maior número de pessoas sendo o critério aplicável. (Os utilitaristas foram a extremos desenvolvendo o que chamaram de “cálculo felicífico” ou “cálculo hedonístico”…).

Não vamos discutir aqui, neste momento, essas teorias – nem mencionar outras (como a de Kant), que poderiam facilmente ser invocadas. Apenas menciono essas duas, e de forma admitidamente simplificada, para ilustrar a necessidade de critérios de demarcação – algo que se busca e se acha no plano cognitivo.

5. O Querer Fazer o que é Certo – ou: A Moralidade no Plano Conativo

Para que consideremos uma determinada ação uma ação moral, basta que saibamos mostrar, através de critérios defensáveis, que aquela ação se inclui na categoria das ações de conotação moral e, dentro destas, na subcategoria das ações moralmente certas.

Para que uma pessoa seja considerada uma pessoa moral, entretanto, ainda que em um sentido derivativo, não basta que ela saiba, no plano intelectual, quais ações são moralmente certas, quais são moralmente erradas e quais são neutras. É preciso que ela faça o que é moralmente certo e não faça o que é moralmente errado.

Mas, na verdade, não basta que a pessoa faça o moralmente certo e deixe de fazer o moralmente errado: é preciso que esse fazer ou deixar de fazer não seja resultante de forças fortuitas (mero acaso) ou alheias à vontade da pessoa (como quando alguém a força a agir de uma forma ou de outra), mas seja, sim, decorrente de sua decisão consciente, livre e voluntária – ou seja, de sua própria vontade. Assim, entre o saber e o fazer, há um elemento intermediário, o que poderia ser chamado de “espaço de decisão”, em que a pessoa resolve que quer fazer o certo e não quer fazer o errado. É sobre esse “querer fazer” que falarei agora. [Em seguida falarei sobre o passo que vai do “querer fazer” para o “efetivamente fazer”, culminando na ação.]

Ao discutir o “querer fazer” estamos lidando com que se denominou, na filosofia tradicional, a vontade. Nem sempre é fácil distinguir a vontade (isto é, o querer) do saber e do fazer, propriamente dito.

Imaginemos que uma pessoa casada e com filhos, que vive de forma relativamente feliz com a família, e que tem no cônjuge uma pessoa boa, responsável e fiel, subitamente se apaixone por outra pessoa, que ela sabe ser solteira, irresponsável e volúvel, mas que é bastante atraente — ou, para complicar a situação, se apaixone por outra pessoa que ela sabe ser casada, responsável e séria — ou, para complicar a situação ainda mais, se apaixone por outra pessoa que é do mesmo sexo, seja ela solteira ou casada…

Imaginemos que, neste caso, ou da primeira hipótese aventada, a pessoa casada conclua, no plano intelectual (cognitivo), e usando seu próprio critério de moralidade, que trair o cônjuge é moralmente errado. Essa é uma conclusão que ela alcança com sua própria cabeça, por assim dizer. Ao mesmo tempo, porém, ela não quer fazer o que ela mesma considera moralmente certo – quer, isto sim, fazer o que ela mesma considera moralmente errado: trair o cônjuge — porque está apaixonada por outra pessoa.

O que temos aqui é um conflito moral entre o intelecto e a vontade, entre o plano cognitivo e o plano que normalmente se denomina conativo.

Na novela de Manuel Carlos, Laços de Família (transmitida pela Globo em 2000-2001), uma filha (Camila, representada por Carolina Dieckmann) se apaixona por quem ela sabe ser o namorado da mãe (Edu, representado por Reynaldo Gianecchini – a mãe, Helena, é representada por Vera Fischer). É possível imaginar que a filha, no plano cognitivo, ache moralmente errado envolver-se com o namorado da mãe. No plano da vontade, porém, assim que se percebeu apaixonada por ele, ela quis se envolver com ele. O conflito do cognitivo com o conativo ficou claramente delineado.

Esse exemplo é de certo modo suficiente para mostrar que os sentimentos e as emoções são muito mais potentes para mover a vontade do que a razão ou o intelecto. A pessoa em geral quer (vontade) porque os sentimentos e as emoções a empurram (está apaixonada). As considerações racionais que a razão ou o intelecto pode produzir para dissuadi-la de agir em geral reconhecidamente fazem sentido mas não são capazes de mover a vontade. (É por isso que alguns filósofos, como David Hume, negam que a razão seja capaz de mover a vontade, quando a ele se contrapõem as paixões…).

É aqui, neste conflito da razão com as emoções, do intelecto com a vontade, que se situam os grandes dilemas que formam o enredo de obras literárias famosas, de filmes e de novelas…

Só de passagem, uma referência a um problema sério, mas não tão envolto em sentimentos e emoções. Muitos alunos de nossas escolas, tanto de nível básico como de nível superior, não hesitam, durante uma prova, em colar de colegas, ou de perguntar ao colega do lado, bem como, ao fazer um trabalho, em se apropriar, sem o devido crédito, de trabalhos já realizados por terceiros (plagiarismo). No entanto, esses alunos que assim se comportam, se indagados, em entrevista, em geral reconhecem que o que fizeram é moralmente errado – mas nem por isso deixaram de fazê-lo (nem vão deixar de fazê-lo no futuro, como não raro admitem).

Como resolver esses dilemas de modo a querer o que é moralmente certo e a deixar de querer o que é moralmente errado? Talvez aqui, e não no plano cognitivo, se situe a maior dificuldade da educação moral.

Se estão certos os que, com Hume, afirmam que são os sentimentos e as emoções, e não as considerações racionais, que movem a vontade, a educação moral, aqui neste plano, se reveste de educação da sensibilidade e educação das emoções: como alinhar os nossos sentimentos e as nossas emoções com aquilo que sabemos ser moralmente certo, de modo que sentimentos e emoções (aquilo que Hume chamava de “nossas paixões”) funcionem para nós e não contra nós?

6. O Fazer o que se Quer Fazer e o não Fazer o que não se Quer Fazer

Muitos confundem este plano com o anterior, mas ele é claramente diferente.

Há uma passagem conhecida de São Paulo em que ele se lamenta, afirmando que “o bem que eu quero, este não faço, e o mal que não quero, este faço” [Romanos 7:15,19].

São Paulo, aqui, sabe o que é certo e o que é errado – nenhuma dúvida acerca disso. E também não há dúvida de que ele quer fazer o certo e não quer fazer o errado. Entretanto, segundo sua própria admissão, ele não consegue.

Estamos aqui lidando com um conflito diferente do mencionado no item anterior. Aqui a razão e o intelecto, de um lado, e a vontade, os sentimentos e as emoções, do outro lado, estão alinhados – mas, apesar disso, alguma força misteriosa, uma pulsão, por assim dizer, se contrapõe a esses três elementos (cognitivo, conativo e emotivo) e a pessoa não consegue fazer aquilo que ela sabe ser certo e quer fazer, nem consegue deixar de fazer aquilo que ela sabe ser errado e quer não fazer.

Aqui nos situamos nos planos das compulsões, que afetam aqueles que se deixam controlar por atividades que, segundo se diz, “viciam”: fumo, bebida, droga, comida, jogo, consumo, sexo, Internet.

Compulsões, quando graves, requerem tratamento especializado, em geral psiquiátrico ou psicanalítico (ou então religioso – São Paulo explicou seu dilema dizendo que, quando ele faz o que sabe ser errado e não quer fazer, na realidade não é ele que faz: quem faz “é o que pecado que mora em mim”). Nesses casos, o indivíduo, desassistido, não consegue fazer o que quer nem deixar de fazer o que não quer. Sua vontade não tem força suficiente para levá-lo a fazer o que ele acha certo e tem vontade de fazer – nem para levá-lo a deixar de fazer o que ele acha errado e tem vontade de não fazer. Sua vontade é impotente ou muito fraca. Ele sofre daquilo que os gregos chamavam de akrasia.

7. Moralidade e Valores

Valores são os nomes que geralmente são dados àquilo que a gente luta para ter ou conservar – ou seja, àquilo que a gente deseja e quer.

Alguns de nossos valores são, digamos, valores-meio (ou valores extrínsecos): seu valor advém do fato que eles nos permitem chegar a outras coisas que valoramos mais do que os valores-meio ou valores extrínsecos.

Dinheiro é um valor-meio. Enganam-se os que imaginam que as pessoas querem dinheiro para poder guardar, como algo que é valioso em si mesmo. As pessoas querem dinheiro, isto sim, porque o dinheiro nos permite acesso a coisas que valoramos mais do que o dinheiro – doutra forma não daríamos nosso dinheiro em troca delas, para obtê-las.

A maior parte de nossos valores é desse tipo – valores-meio, valores instrumentais.

É possível concluir, porém, que há coisas que têm valor em si mesmas – que são valores intrínsecos. Em relação a essas coisas, se nós as valorizamos, valorizamo-nas por si mesmas – e se não as valorizamos de fato, dizemos que deveríamos valorizá-las. É aí que a moralidade se situa.

Com isso é possível que estejamos apontando para o critério fundamental que vai nos permitir demarcar ações (ou questões) que possuem uma conotação moral das que não possuem: o fato de valores intrínsecos estarem envolvidos naquelas que possuem conotação moral.

Por isso, quando se trata da moralidade, propriamente dita, normalmente não se conclui que cada um pode ter seu ponto de vista – e tudo bem. Poucos são os que acham que matar, roubar, ser desonesto, mentir, descumprir promessas, etc., são coisas que as pessoas podem escolher fazer ou não, conforme o seu gosto ou o seu humor no momento, ou simplesmente a sua preferência.

Em geral, um indicativo de que não estamos tratando de questões morais pode ser encontrado no fato de que achamos perfeitamente natural que outros se comportem, em relação a nós, de maneira totalmente diversa daquela que preferimos. (Aqui entra a questão do colocar-se na posição do outro, que é uma ação de nossa imaginação: a gente imagina como o outro se sentirá se fizermos algo com ele, ou como nós nos sentiremos se o outro fizer algo conosco). Chama-se de empatia esse esforço de se imaginar no lugar do outro, ou imaginar o outro no nosso lugar.

8. A Educação Moral: À Guisa de Resumo e Conclusão

A educação moral talvez seja uma das áreas mais complexas da educação, porque envolve pelo menos quatro planos ou aspectos distintos:

  • O Plano Cognitivo: é preciso saber istinguir estas duas coisas aqui neste plano:
    • Demarcar (ou saber diferenciar) as ações que possuem conotação moral das ações que não possuem conotação moral (“ações neutras”, “ações amorais”, “ações moralmente indiferentes”, “adiaphora”);
    • Demarcar (ou saber diferenciar), para as ações que possuem conotação moral, quais são moralmente certas (morais, em sentido mais estrito) e quais são moralmente erradas (imorais – diferente de amorais);
  • O Plano Conativo: é preciso, neste plano, o da vontade, tomar a decisão de fazer o que é moralmente certo e de não fazer o que é moralmente errado;
  • O Plano Afetivo: é preciso recorrer às nossas emoções positivas (sentimento de dever, obrigação, responsabilidade, solidariedade, etc.) para convocá-las a nos influenciar e motivar para que façamos o que é moralmente certo e às nossas emoções negativas (sentimento de vergonha, culpa antecipatória, receio de condenação e outras sanções, etc.) para convocá-las a nos demover e afastar de fazer o que é moralmente errado;
  • O Plano Ativo: efetivamente fazer o que é moralmente certo e não fazer o que é moralmente errado.

Que cada um desses planos é condição necessária (mas não suficiente) para o seguinte me parece claro, embora possa ser questionado. A ação moral não é moral quando é realizada sem que a pessoa saiba que ela é moralmente certa, e sem que tenha desejado realizá-la. Uma ação realizada “sem querer” (se é que faz sentido falar de ação neste caso) não é uma ação moral. Tampouco o é uma ação, ainda que desejada, em relação a qual a pessoa não consegue, além de perceber, sentir, no plano das emoções, suas implicações morais e a importância, no plano moral, de estar agindo desta forma, e não de outra. A meu ver, a questão da formação do caráter e do desenvolvimento de uma vida virtuosa se insere principalmente aqui, no plano dos sentimentos. Finalmente, não basta chegar até aqui e não fazer o que é certo e deixar de fazer o que é errado: é preciso agir. Por isso, acredito que cada plano é um pré-requisito do seguinte. Para a ação moral é necessário que os quatro planos aqui mencionados estejam presentes – os quatro, juntos, seriam condição suficiente da ação moral.

Não é difícil imaginar o que seria a instrução moral, que atuaria no plano cognitivo (plano do saber ou do conhecimento). Mais importante, porém, do que saber, em relação a cada curso de ação, se é moralmente certo ou errado, ou então neutro, é ter princípios  básicos que, em relação a qualquer curso de ação possível, nos permitam determinar, com razoável confiança, se aquele curso de ação é moralmente correto ou incorreto (ou neutro). Quando lidamos com princípios básicos, porém, entramos fatalmente na área da filosofia. Se nenhuma outra razão houvesse para que a filosofia estivesse presente no currículo escolar, só esta bastaria.

O moralista é aquele que nos diz o que é moralmente certo e o que é moralmente errado. O educador moral (na minha opinião, fatalmente um filósofo) é aquele que nos ajuda a definir princípios que nos permitam a decidir por nós mesmos o que é moralmente certo e o que é moralmente errado. (Sempre se imaginou que haja ações que não são nem moralmente corretas nem moralmente incorretas. Elas seriam, portanto, moralmente neutras. Calvino as chamava de “adiaphora”).

O plano conativo, que envolve a tomada de decisão e do acionamento da vontade precisa estar conjuminado com o plano afetivo, que nos leva a associar sentimentos positivos (que nos fazer sentir bem) ao querer fazer o bem (o que é moralmente certo) e a associar sentimentos negativos (que nos fazem sentir mal) ao querer fazer o mal (o que é moralmente errado). Muitos autores negligenciam essa conexão necessária entre a decisão e a vontade, de um lado, e o sentimento e as emoções, do outro, pressupondo que, “conhecer o bem é querer fazer o bem”, que basta saber qual o curso de ação que é moralmente certo e qual é o que é moralmente errado que vamos ficar felizes em querer fazer o primeiro e nos sentir miseráveis se recorrermos ao segundo. Não podemos nos esquecer da advertência de Hume, filósofo escocês do século 18, sobre o qual escrevi minha tese de Doutoramento, de que o intelecto e a razão, que operam no plano cognitivo, são inertes, impotentes, incapazes, por si só, de nos mover a fazer o bem e a evitar o mal. São as emoções que nos movem a agir e a deixar de agir, a agir de uma forma e não de outra. Na raiz do termo “emoção” está a raiz “moção”, que vem de mover, que indica que as emoções são necessárias para nos mover à ação, para fazer com que nossas decisões se transformem em ações, isto é, em realidade. A decisão de fazer (plano conativo) precisa estar acompanhada do querer fazer (plano emotivo).

Fosse o ser humano um ser puramente racional, não afetado pelas “paixões” de que tratam Hume e outros autores, bastaria saber que um curso de ação é moralmente certo para que ele desejasse realizá-lo, e bastaria saber que um curso de ação é moralmente errado para que ele desejasse evitá-lo. O ser humano, porém, não é puramente racional. Por isso, depois de estar convencido, no plano cognitivo, de que um curso de ação é moralmente correto, e decidido que quer fazer o que é moralmente certo e evitar o que é moralmente errado, ele precisa, de certo modo, ser capaz de regimentar os seus sentimentos e suas emoções para que ele venha a desejar realizá-lo.

Como se faz isso? Através da educação das emoções, da aquisição de competência emocional, que é alcançada, primeiro, através da criação de condições para que aflorem as emoções corretas, e, segundo, através do desenvolvimento da capacidade de controlar as emoções indesejáveis pela razão (o “Centro Executivo” do cérebro de que trata Daniel Goleman). Na educação das emoções a convivência interpessoal adequada, em comunidades que estimulam o desenvolvimento das emoções corretas e nos ajudam a controlar as indesejáveis, é essencial. O papel dos exemplos aqui é fundamental. Também extremamente importante, porém, é a vivência “virtual”, através da literatura, do cinema, das artes em geral. O papel dos heróis ou “ídolos” aqui é também fundamental. (É lastimável que nosso cinema e nossa televisão nos apresentem anti-heróis, exemplos negativos.)

Muitas vezes é possível saber, no plano cognitivo, qual é o curso de ação que é moralmente certo, decidir conscientemente segui-lo, mas, na hora “h”, não querer realizá-lo… Ou, então, saber, no plano cognitivo, que um curso de ação é moralmente errado, decidir, conscientemente, evita-lo, mas ainda assim, na hora “h”, não conseguir deixar de realizá-lo. Os gregos também tinham uma palavra para isso: a já mencionada “akrasia”, ou ausência de poder ou controle sobre a vontade. São os sentimentos e as emoções que nos dão esse poder.

No plano ativo (plano do fazer, ou do agir, ou da ação) as coisas também, às vezes, se complicam. Já São Paulo dizia, como mencionado: “o bem que eu quero, este eu não faço, e o mal que eu não quero, este faço”. O problema de São Paulo não era nem no plano cognitivo, nem no conativo, nem mesmo no afetivo: ele queria fazer o bem e evitar o mal – mas, a julgar pela sua confissão, não conseguia. O fumante sabe que o fumo faz mal à saúde, quer parar de fumar, sabe que vai se sentir arrasado se não parar, mas não consegue. O viciado em drogas sabe que as drogas o vão destruir, decide evita-las, quer fugir de seu jugo, mas não consegue.

Como é que a educação moral pode atuar neste plano?

Uma vez mais, aqui, o papel da convivência é essencial. Sem comunidades de suporte que nos ajudem nesses momentos difíceis por que todos passamos, em que é preciso alcançar uma força de vontade tal que às vezes parece estar acima de nossas capacidades, às vezes é impossível agir da forma moralmente correta. Não é outra a função de comunidades como “alcoólatras anônimos”, “vigilantes do peso”, etc. A família, os amigos, a comunidade (incluindo a igreja, se for mais “apoiativa” do que “condenativa”) são também essenciais aqui.

Como se pode ver, educação moral é algo complexo. A escola, enquanto instituição, pode contribuir um pouco com ela – muito mais do que hoje o faz. Mas nem de longe pode se desincumbir dela sozinha. E vimos, no decorrer dessa breve exposição, o papel que a educação das emoções e da “competência emocional” exerce no processo. Acredito que a boa literatura e o bom cinema são fundamentais nesse processo.

NOTAS

[1] Trabalho originalmente redigido para uso dos alunos da disciplina “Educação Moral” ministrada no Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação e Ciências Humanas do Instituto Adventista São Paulo (IASP), hoje parte da UNASP: Centro Universitário Adventista de São Paulo.

[2] Aquela que é considerada por muitos como a maior obra filosófica moderna (ou, pelo menos, a maior obra filosófica moderna escrita em InglêsA Treatise of Human Nature (1739-1740), de David Hume (1711-1776), escrita e publicada quando ele não tinha sequer completado trinta anos, trata das três (então chamadas) faculdades humanas clássicas: “Thought, Emotion, and Will” (Pensamento, Emoção e Vontade), responsáveis, respectivamente, pelos seguintes “conteúdos”: “The Understanding, the Passions, and Morals” (O Entendimento, as Paixões e a Moralidade), para usar a linguagem usada por Hume para dar o título das três grandes divisões de seu opus magnus. Essas três “faculdades” lidam com as três grandes dimensões da mente humana: a cognitiva, a emotiva e a conativa (para usar os termos consagrados) – ou seja: conhecer, sentir, escolher/decidir/agir (ou, no terceiro caso, servir de mola propulsora para a ação do ser humano, fornecendo-lhe a intenção, a motivação, e o desejo de agir; se a ação é feita ou não já depende de outros fatores, como, por exemplo, se sua vontade é suficientemente forte e não está enfraquecida [akrasia], se ele não está externamente coagido e, portanto, sem liberdade, se ele não está cativo de hábitos, vícios e pulsões que, internamente, o impedem de agir ou dificultam sua ação — e, neste caso, precisa da ajuda de terceiros.

[3] Na Idade Média, por muitos erroneamente considerada a Idade das Trevas, discutiu-se bastante a seguinte a questão: Deus nos proíbe de realizar determinadas ações porque elas são moralmente erradas (imorais), ou essas ações determinadas são moralmente erradas (imorais) porque Deus a proibiu? Essa questão assim rotulada: prohibita quia mala vel mala quia prohibita? (As ações são proibidas porque imorais ou são imorais porque proibidas?). Se determinadas ações são proibidas porque são moralmente erradas (imorais) em si mesmas, até Deus está sujeito às normas ou regras morais. Se, no entanto, determinadas ações são moralmente erradas (imorais) porque são proibidas por Deus, então Deus é a origem e a fonte das normas ou regras morais – sendo concebível que essas normas ou regras fossem totalmente diferentes, caso Deus assim o tivesse desejado. Em outras palavras: neste caso a moralidade depende do arbítrio divino… Na Bíblia há indicações de que Deus de vez em quando muda de opinião ou até mesmo se arrepende de ter feito determinadas coisas, até mesmo de ter criado o homem! (Vide Gênesis 6:7 e 8:21).

Versão original concluída em Campinas, 17 de Agosto de 2000. Revisão (atualização, várias correções e pequenos acréscimos) em São Paulo, 23-24 de Agosto de 2018 – exatamente dezoito anos e uma semana depois. Mais recisões em Salto, 9 de Outubro de 2020.

(c) Eduardo Chaves

A Felicidade: O Céu como um Lugar aqui na Terra

NOTA:
Publiquei este post no dia 21/07/2018 também no meu blog “Portal” Chaves Space,
no seguinte endereço:
https://chaves.space/2018/07/21/a-felicidade-e-o-ceu-como-um-lugar-aqui-na-terra-para-vitor-chaves-de-souza/.
Republico-o aqui neste novo blog, Eudaemonia Space, que é seu lugar natural.
Fiz pequenas correções e alterações no texto.

Recebi ontem [20/07/2018] a autobiografia de Martin E. P. Seligman, publicada em Abril deste ano (2018), que tem o título de The Hope Circuit e o subtítulo de A Psychologist’s Journey from Helplessness to Optimism.

Seligman, que é um ano mais velho do que eu (nasceu em Agosto de 1942), recebe crédito por ter inventado a chamada Psicologia Positiva. Cansou-se ele de ver a Psicologia tradicional ocupar-se apenas de “Distúrbios, Desordens, Doenças Mentais” e pressupor que, eliminados esses, a pessoa alcançaria “Saúde Mental”.

Assim, propôs-se a investigar a felicidade e o bem-estar individual, a auto-realização, o flourishing (florescimento), a eudaemonia (a plenitude de vida) como agenda para Psicologia (e também para a Educação e, fantástico, para a Religião).

Seligman criou um conjunto de critérios para determinar o grau de felicidade ou bem-estar de uma pessoa, a que chamou de PERMA:

1 – Positivity in Thoughts, Emotions and Attitudes
2 – Engagement in Life Mission or Calling
3 – Rich Relationships
4 – Meaning in Life
5 – Accomplishments as Legacy

Em Português, em tradução minha, mais ou menos livre, e sem manter o acrônimo, fica:

1 – Focar nossa vida em Pensamentos, Emoções e Atitudes Positivos
2 – Engajarmo-nos em um Projeto / Missão de Vida, ou Chamamento / Vocação
3 – Desenvolver Relacionamentos Ricos
4 – Construir Sentido e Significado na Vida
5 – Produzir um Legado Rico em Realizações

Alcança Saúde Mental quem obtém um resultado elevado no PERMA — não quem simplesmente não tem (ou se livra de) Doenças Mentais ou problemas como, por exemplo, ansiedade, pânico, histeria, depressão, esquizofrenia, etc. (ou mesmo está, ou fica, livre de todos os mais de 300 “distúrbios”, “desordens”, “doenças” mentais” [!!!] listados no Diagnostic and Statistical Manual da American Psychiatric Association) [p.168 da autobiografia].

Convenceu-se Seligman de que a dor e o sofrimento representados pelos distúrbios, desordens, problemas, doenças mentais são coisas negativas, que nos puxam ou mesmo arrastam para baixo — para um PERMA “abaixo de zero”. Mesmo quando a dor e o sofrimento passam, se nós não somos basicamente felizes, nós “voltamos para zero”, “retornamos à estaca zero”. Estacionar no zero, sem problemas, é verdade, que nos arrastariam para o nível abaixo de zero, mas, também,

  • sem uma vida positiva em seus pensamentos, em suas emoções e em suas atitudes;
  • sem um projeto de vida significativo, que venha a ser a nossa missão de vida, e que represente o nosso Norte;
  • sem relacionamentos ricos, que contribuam para o nosso crescimento;
  • sem encontrar sentido em nossa vida ou imprimir significado a ela;
  • sem construir um legado rico em realizações;

não é felicidade, nem nos traz bem-estar psíquico, porque não estaremos progredindo acima do zero.

A felicidade não pode ser representada por zero, por uma mera ausência de dor e sofrimento representados pela cura (ainda que total) dos distúrbios, desordens, problemas, doenças mentais. Ela é representada por um número positivo, acima, quem sabe bem acima, de zero… A felicidade é algo que nós precisamos construir, blindando-a para que nenhuma dor ou sofrimento a possa destruir.

Por isso, para complementar, ou quiçá substituir, o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Distúrbios, Desordens e Doenças Mentais, Seligman, com a ajuda de um colega, Christopher Peterson, coordenou e publicou Character Strengths and Virtues: A Handbook and Classification (Manual Classificatório dos Pontos Fortes do Caráter e da Vida Virtuosa). Esse manual enfatiza, não as “insanidades” cuja remoção (na visão convencional) representaria a saúde mental, mas, sim, as “sanidades“, os traços de caráter e as virtudes sem os quais ninguém (como já disse em outro artigo aqui neste novo blog) conquista a felicidade, o bem-estar, a auto-realização, a plenitude de vida – a sensação de quem fez o que se propôs fazer, executou a missão que se impôs a si próprio, agiu com serenidade, coragem, virtude e sabedoria, dando o melhor que havia dentro de si, cumpriu com o seu dever para consigo mesmo e para com os outros, deu sentido e significado à própria vida, coroando-a com os mais elevados lauréis.

A biografia de Seligman, escrita quando estava em seus setenta e cinco – setenta e seis anos, é leitura fantástica: uma lição de vida.

Terminando, algo que mexeu especialmente comigo… Na religião, Seligman, que é judeu reformado não-praticante, propõe uma importante guinada, que representa uma mudança de mindset (atitude mental) e paradigma na teologia e na prática religiosa:

  • Deixar o pecado para trás e enfatizar o potencial humano para o bem [no jargão teológico cristão tradicional, abandonar Agostinho e adotar Pelágio; no jargão teológico cristão reformado, abandonar Lutero e Calvino e adotar Erasmo e Armínio];
  • Abandonar a cruz (que representa o fracasso e o sofrimento do ser humano) e focar na ressurreição (que representa a sua felicidade e realização), remover o foco do passado, deixar de ser empurrado pela tradição e pela memória, e olhar para o futuro, deixando-se puxar pelo projeto de vida e pela esperança [vide Filipenses 3:13];
  • Deixar de lado a humildade excessiva, a flagelação e o quebrantamento e buscar com ousadia a auto-realização, calcada em projeto / missão de vida (chamamento / vocação) que dá sentido e significado à vida e desemboca em realizações que sejam importantes contribuições para o próximo, para a sociedade, e para o futuro da humanidade neste mundo;
  • A felicidade que importa é nesta vida e neste mundo, não numa eventual vida futura em um céu hipotético.

Essa, eu diria, é a essência do tão criticado e vilipendiado Pensamento Liberal na Teologia, a essência de uma Teologia Positiva. 

O céu, como diz meu sobrinho, também teólogo, e professor de Teologia na UMESP, Vitor Chaves de Souza, a quem dediquei o post original, é um lugar aqui na Terra. Amém.

Em post futuro falarei da Educação Positiva.

Em São Paulo, 21 de Julho de 2018; revisto e parcialmente modificado também em São Paulo, 30 de Julho de 2018, e em Salto, 18 de Junho de 2019

 

Bibliografia Básica sobre Felicidade

  1. Alan S. Waterman, editor, The Best Within Us: Positive Psychology Perspectives on Eudaimonia [Printed, hardcover]
  2. Bertrand Russell, The Conquest of Happiness [E-Book]
  3. John Brockman, The Mind: Leading Scientists Explore … Happiness [E-Book]
  4. Jonathan Haidt, The Happiness Hypothesis: Finding Modern Truth in Ancient Wisdom [E-Book]
  5. Jonathan Haidt, The Happiness Hypothesis: Putting Ancient Wisdom to the Test [E-Book]
  6. Jonathan Haidt, The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion [E-Book] [Printed, hardcover]
  7. Martin Seligman et alii, Homo Prospectus [Printed, hardcover]
  8. Martin Seligman et alius, Character Strengths and Virtues: A Handbook and Classification [E-Book] [Printed, hardcover]
  9. Martin Seligman, Authentic Happiness: Using the New Positive Psychology to Realize Your Potential for Lasting Fulfillment [E-Book] [Printed, paperback]
  10. Martin Seligman, Flourish: A Visionary New Understanding of Happiness and Well-being [E-Book, 2 copies] [Printed, paperback]
  11. Martin Seligman, Learned Optimism: How to Change your Mind and your Life [E-book] [Printed, paperback]
  12. Martin Seligman, The Hope Circuit. A Psychologist’s Journey from Helplessness to Optimism [Printed, hardcover]
  13. Michal Stawicki, A Personal Mission Statement: Your Roadmap to Happiness [E-Book]
  14. Nel Noddings, Happiness and Education [E-Book]
  15. Nic Marcs, The Happiness Manifesto [E-Book]
  16. One Day University, Positive Psychology: The Science of Happiness [E-Book]
  17. Paul Brodie, The Pursuit of Happiness: Ten Ways to Increase your Happiness [E-Book]
  18. Paulo Dolan, Happiness by Design: Finding Pleasure and Purpose in Everyday Life [E-Book]
  19. Philip Gulley, Living the Quaker Way: Discover the Hidden Happiness in the Simple Life [E-Book]
  20. Raj Raghunathan, If You Are So Smart, Why Aren’t You Happy? [Printed, hardcover]
  21. Richard Layard, Happiness: Lessons from a New Science [E-Book]
  22. Sonja Lyubomirsky, The How of Happiness: A New Approach to Getting the Life You Want [Printed, paperback]
  23. Suzann Pileggi Pawelski and James O. Pawelski, Happy Together: Using the Science of Positive Psychology to Build Love That Lasts [E-book]

[NOTA: Todos os livros da biblioteca pessoal de Eduardo Chaves]

Em São Paulo, 30 de Julho de 2018

Livros de Martin Seligman

NOTA: Todos os livros na biblioteca pessoal de Eduardo Chaves.

Em São Paulo, 30 de Julho de 2018

Quem Tem Medo da Felicidade?

Interessei-me por esta questão em 1976. Na época eu era Diretor Associado e Coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da UNICAMP e firmamos um Convênio de Cooperação e Permuta Temporária de Professores com a Bowling Green State University, de Bowling Green, Ohio – um lugar interessante, numa planície ao oeste de Cleveland, não muito longe da casa da minha filha, que fica ao leste. O primeiro professor a vir de Bowling Green para a UNICAMP foi o Prof. Dr. Morris Joseph Weinberger, da área de Administração e Supervisão Educacional. Creio que veio em 1976, mesmo, ou, o mais tardar, no ano seguinte. (Em 1981 eu retribuí a visita passando três meses lá, dando um curso de História da Educação Brasileira). Em Campinas, assisti a várias aulas do Prof. Weinberger, e, em alguns casos, até ajudei na tradução (embora na época ainda não fosse Tradutor Público Juramentado e Intérprete Profissional, como sou hoje).

Fiquei interessado em especial em um Questionário que ele aplicava acerca dos Objetivos da Educação Escolar Básica (K-12). O Questionário não era realmente um questionário – não tinha questões ou perguntas. Era uma lista de vinte possíveis objetivos para a escola básica que as pessoas precisavam hierarquizar do mais para o menos importante. O mais importante objetivo para a escola básica, dentre os vinte da lista, iria para o primeiro lugar, e a seguir os demais, em ordem de menor importância. Os objetivos que fossem colocados nos últimos lugares, digamos, em décimo nono e vigésimo lugar, representariam condições que o respondente não considerava, realmente, que devessem ser objetivos da escola básica – ficariam fora ou além (ou, quem sabe, aquém) de seu escopo.

Na média das aplicações dos Questionários para professores e alunos brasileiros, os objetivos que em geral ficavam nos dois primeiros lugares eram coisas do seguinte tipo: “Ajudar os alunos a aprender a aprender, para que possam aprender sempre”, “Conscientizar os alunos da importância de lutar por uma sociedade melhor e mais justa”, etc. Tudo muito politicamente correto, antes do tempo. Os dois objetivos que infalivelmente ficavam nos dois últimos lugares, alternado-se no vigésimo lugar, eram: “Ajudar os alunos a encontrar uma carreira ou profissão que lhes possa trazer sucesso financeiro” e “Ajudar os alunos a alcançar felicidade e realização pessoal”. Professores e alunos americanos apresentavam significativas diferenças na média de suas respostas. Aqui no Brasil parecia ser pecado capital para a escola ajudar os alunos a escolher carreira ou profissão adequada, ganhar dinheiro e encontrar a felicidade (mesmo sem pressupor que é o dinheiro que traz a felicidade).

Pareceu-me absurdo que o último objetivo mencionado no parágrafo anterior (relativo à felicidade e à realização pessoal) ficasse, aqui no Brasil, consistentemente em um dos dois últimos lugares. Para mim, já naquela época, deveria estar entre os primeiros lugares, se não no primeiro.

Introduzi o uso do Questionário na minha disciplina de Filosofia da Educação I (EP-130), ministrada sempre no primeiro semestre do ano para alunas ingressantes no Curso de Pedagogia (falo em alunas, no feminino, porque, em geral, 38 dos 40 alunos eram mulheres). Apliquei o teste por cerca de vinte anos. Acabou o Regime Militar, começou a chamada Nova República, e o resultado se manteve. Só que agora, na minha disciplina, eu usava a média das respostas como excelente trampolim para a discussão da questão mais geral dos Objetivos da Educação e da questão mais estreita dos Objetivos da Educação Escolar, em especial no Nível Básico (K-12).

A principal razão do meu espanto com os resultados da aplicação do Questionário aqui no Brasil estava no fato de que, 2.500 anos atrás, entre os Gregos Clássicos, já se defendiam as teses de que nós vimos ao mundo para ser felizes, e de que a felicidade consiste, não meramente em viver ou sobreviver, ainda que em prazer e não em dor e sofrimento, mas, isto sim, em florescer na vida,  em viver uma vida virtuosa que leva à realização daquilo que escolhemos como nosso projeto de vida. Uma vida desse tipo leva à felicidade, entendida como realização e plenitude: como eudaemonia[i].

É verdade que, depois dos Gregos, vieram os Romanos e, durante o domínio destes na Antiguidade, o Cristianismo, que, em algumas de suas facções, fez questão de contrariar os Gregos, defendeu a tese de que não fomos criados para ser felizes, mas para glorificar a Deus, e que a vida, aqui na Terra, o mais das vezes, não passava de um “Vale de Lágrimas”, em que o sofrimento ajudava a purgar a culpa decorrente do pecado original de nossos primeiros pais e dos nossos próprios pecados, inevitáveis, dos quais não haveria como como nos libertar por nós mesmos, ainda que o quiséssemos e tentássemos. O Cristianismo, em algumas de suas tendências, teve a má ideia de adotar o auto flagelamento e até mesmo a auto mutilação, junto de iniciativas mais brandas como o e eremitismo e o monasticismo, que sempre envolveram a fome (o jejum),  as penitências, as peregrinações, etc. – coisas que em nada contribuem para a felicidade, em si.

Na Renascença dos séculos 14 e 15, o ideal grego clássico retornou… Mas a Reforma Protestante dos séculos 16 e 17 o combateu. Só foi no Iluminismo do século 18 que a ênfase na felicidade e na auto-realização pessoal voltou a ocupar lugar de destaque. Na Teologia, ela continuou ao longo do século 19, com o Liberalismo Teológico. Mas, em meados do século 19, o Socialismo, que perdurou até o século 20 e mesmo depois, voltou a considerar a busca da felicidade e da auto-realização pessoal como algo egoísta, que deve ser deixado de lado em favor da solidariedade altruísta, do colocar o outro na frente da gente…

Há poucos dias (na verdade, em 22/07/2018), a Paloma, minha mulher, compartilhou no Facebook uma notícia de que a Universidade de Brasília (UnB) estaria inovando de forma radical com um curso sobre a Felicidade. A notícia foi dada pelo site Metrópoles, e tinha o seguinte título: “‘Felicidade’ será nova disciplina da UnB a partir do próximo semestre” [i]. Dos que leram a notícia, pouquíssimos a amaram, alguns se surpreenderam, vários simplesmente curtiram, alguns inevitavelmente fizeram gozação, e uns poucos pareceram levar a sério a proposta [ii].

Vamos ver no que dará essa proposta da UnB. A conferir.

NOTAS

[i] Vide, neste contexto, o excelente livro The Best Within Us: Positive Psychology Perspectives on Eudaimonia, editado por Alan S. Waterman (American Psychological Association, Washington, DC, 2013). Nesse livro, eudaimoniaé definida como: “Eudaimonia is defined in this volume as: flourishing, realization of potentials reflecting the true self, happiness that comes from the pursuit of virtue/excellence”  (Eudaimonia é definida neste volume como florescimento, realização de potenciais que refletem o verdadeiro ser da pessoa, e felicidade que advém da busca da virtude/excelência”). Esse resumo é retirado da breve resenha do livro que é fornecida no site da Amazon, sob responsabilidade do site (https://www.amazon.com/Best-Within-Psychology-Perspectives-Eudaimonia/dp/1433812614/).

[ii] https://www.metropoles.com/distrito-federal/educacao-df/felicidade-sera-nova-disciplina-da-unb-a-partir-do-proximo-semestre.

[iii] https://www.facebook.com/palomachaves/posts/10216429663912205.

Em São Paulo, 30 de Julho de 2018

A Felicidade

Há assuntos sobre os quais a gente só se arrisca a escrever depois que passa dos três quartos de século…  Vou completar 75 anos em menos de dois meses– e resolvi enfrentar um desses: a felicidade.

A maioria das pessoas deseja ser feliz; poucas realmente o são.

Algumas imaginam, em determinado momento da vida, que são felizes mas descobrem, anos depois, às vezes no fim da vida, que de fato não eram – em geral porque vieram a contemplar, ou mesmo viver por um tempo, uma vida que era muito mais florescente, realizada, plena do que aquela que antes viviam.

Outras só encontram a verdadeira felicidade quando o fim da vida já aparece no horizonte – e o tempo para desfruta-la está escasso.

Outras professam não saber no que consiste a felicidade. O conceito lhes parece vago, impreciso. Não lhes fornece uma diretriz clara e precisa sobre onde procura-la.

Outras chegam a negar que a felicidade exista. São pessimistas, por natureza ou experiência.

E ainda outras, por fim, afirmam que a felicidade é algo relativo, que varia com o local, com o tempo, ou mesmo com o indivíduo singular. Segundo elas, tudo (ou seja, qualquer coisa) pode representar a felicidade. “Happiness is different things to different people, that’s what happiness is”, dizia a canção famosa, interpretada pela Orquestra e Coro de Ray Coniff, nos anos de minha juventude [i].

No entanto, é possível fazer, com certa cautela, algumas afirmações que parecem, se não verdadeiras, razoáveis. Uma delas é que, para ser feliz, não basta querer ser feliz – embora sem querer ser feliz dificilmente se consiga ser feliz. A felicidade é algo que é preciso querer, desejar, buscar, perseguir, encontrar, conquistar, manter, preservar, aperfeiçoar, aprimorar. A Declaração de Independência dos Estados Unidos afirma que, por sermos humanos, temos três direitos naturais inalienáveis: o direito à vida, o direito à liberdade, e o direito… não à felicidade, mas, sim, à busca da felicidade. A vida nos é dada sem que façamos algo para merecê-la; a liberdade é algo que naturalmente temos, mas que precisamos lutar para preservar e ampliar (o seu preço é a eterna vigilância, segundo disse, pelo que consta, Thomas Jefferson). Mas a felicidade, esta precisa ser querida, desejada, buscada, perseguida, e, uma vez encontrada, ainda ser conquistada, mantida, preservada, aperfeiçoada, aprimorada.

Outra coisa que parece ser possível afirmar com razoabilidade é que a felicidade é um estado duradouro, não intermitente. Não se está hoje feliz, amanhã infeliz. A felicidade não se confunde com a alegria e o contentamento, que podem ser fugazes, voláteis – ela é resistente, resiliente. É verdade que mesmo os mais felizes têm momentos de tristeza e descontentamento. Mas a felicidade perdura através deles.

Uma terceira coisa que parece ser lícito afirmar, porque razoável, é que a felicidade não é algo que se alcança baixando nossas expectativas, reduzindo nossos desejos em quantidade e intensidade, para que tenhamos menos possibilidades de nos frustrar… A felicidade verdadeira é aquela que decorre daquilo que é melhor dentro de nós –the best within us

Por fim, uma quarta coisa que parece clara tem dois polos.

De um lado, a felicidade não é algo inato, que nasce com alguns e não com outros. Qualquer um pode ser feliz, mesmo sem ter nascido em berço esplêndido, mesmo sem ter sido dotado, ao nascer, de uma aparência física bela e sem ter os ingredientes básicos de uma personalidade charmante e, por isso, atraente, etc.

De outro lado, a felicidade não é algo com o qual a gente topa ou tromba sem querer, por acaso. Para encontrá-la é preciso certo preparo – caso contrário, ela passa por você e você nem percebe…

Desses dois fatos — de que a felicidade não é, de um lado, algo decorrente de características inatas nossas, nem, de outro lado, algo que se encontra sem querer, por acaso, um jogo no qual a gente, se ganhar, é por sorte, como numa loteria – se conclui que a  felicidade é algo que é preciso aprender.

A dificuldade está nessas duas perguntinhas simples: Como? Onde? Como é que se aprende a ser feliz? E onde se aprende a ser feliz? Na escola? Na vida, vivendo?

Quero sugerir neste artigo que todos podem, em princípio, alcançar a felicidade, se forem capazes de resolver a contento duas questões básicas: a primeira, uma questão no plano dos fins; a segunda, uma questão no plano dos meios.

A questão no plano dos fins implica definir, com razoável clareza e precisão, mesmo que não com total finalidade, o que cada um quer fazer de sua vida, aonde ele quer chegar com ela, qual é o destino a que, tendo chegado lá, ele pode dizer como São Paulo: “Combati o bom combate, acabei a carreira” – cheguei aonde queria chegar, cumpri a missão que me impus, estou realizado, pleno… A questão no plano dos fins é uma questão, portanto, de projeto de vida. Se você não sabe aonde você quer chegar, qualquer destino serve, qualquer caminho leva você lá.

A questão no plano dos meios implica reconhecer que, definidos os fins, os meios de chegar lá também são extremamente importantes. Não é qualquer caminho que serve. Na busca de nossos objetivos, não é, por exemplo, atropelando os outros, passando por cima deles, que vamos alcançar a felicidade.

Eu tenho um quadrinho que diz “La felicidad no es un destino: es una forma de caminar…” Parece verdadeiro, mas não o é, pelo menos não totalmente, porque a felicidade é um destino, sim, mas é um destino ao qual apenas se chega caminhando-se de uma certa forma, caminhando do jeito certo. Sugiro qual é essa forma de chegar à meta da felicidade: com serenidade, coragem e sabedoria, como diz a famosa “Oração da Serenidade”: “Deus, dá-me serenidade para suportar o que não pode ser mudado; coragem para enfrentar e mudar aquilo que precisa e pode ser mudado; e sabedoria, para distinguir um do outro.”

[i]     Vide a letra em https://genius.com/Ray-conniff-happiness-is-lyrics.

Em São Paulo, 30 de Julho de 2018